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Uma variedade de temperos, aromas e sabores tomou conta da cozinha do Senai/DF, em Taguatinga, nesta quarta-feira, 27. As 15 finalistas do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar passaram o dia se revezando entre preparações e apresentação de suas receitas para os jurados. Além do cuidado com o visual dos pratos, as participantes inovaram durante a divulgação das comidas. Enquanto algumas passaram vídeos que mostravam seu trabalhos nas escolas, outras chegaram até a cantar e dançar para contar que realizam suas atividades com alegria.

Organizado pelo Ministério da Educação e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da educação (FNDE), o concurso foi encerrado deixando um gosto de missão cumprida. Apesar da adrenalina, as merendeiras conseguiram preparar os pratos dentro do tempo previsto e mostraram de que forma conseguem garantir alimentação saudável e de qualidade aos estudantes com ingredientes típicos de suas regiões.

"O nível das receitas está altíssimo. As participantes estão aliando técnica a sabor e aos nutrientes que um prato deve ter", disse a chef Renata Carvalho, que confessou ter achado muito difícil ter que escolher apenas uma de cada região. Além da chef, o júri foi composto por Mariana Rocha, representante do programa Mundial de Alimentos (PMA); Marcelo Oliveira Silva, representante do Conselho de Alimentação Escolar de Uberlândia/MG; Anelise Regina Pinto, nutricionista do centro colaborador de  alimentação e nutrição do escolar da Universidade Federal de Santa Catarina; e André Victor Barbosa, estudante da rede pública de ensino.

André afirmou estar muito à vontade para falar sobre os pratos. Afinal, o estudante, que cursa o 3º ano do ensino médio no Centro de Ensino Médio - CEM 3 de Taguatinga/DF, sempre estudou em escola pública e está acostumado a fazer a maioria de suas refeições no colégio. "Achei muito interessante o fato de elas terem conseguido ser tão criativas usando ingredientes simples do nosso dia-a-dia. Todos as receitas estavam ótimas. Os alunos que são servidos por essas merendeiras se dão muito bem", brincou o estudante.

A primeira edição do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar reuniu mais de duas mil inscrições de todos os estados do país. E nesta quarta, os jurados degustaram as 15 receitas mais caprichadas de cada região. De nhoque de abóbora à bife verde, foram apresentadas preparações baseadas em ingredientes naturais e nutritivos do Pará, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

"O que mais nos deixou satisfeitos com este concurso foi a possibilidade que tivemos de conhecer as histórias que estão por trás de cada receita. Nesta semana, experimentamos um contato muito rico com as merendeiras e nutricionistas que estiveram aqui. Desde o curso de boas práticas do qual elas participaram até as apresentações da final, todos os momentos conseguiram superar as nossas expectativas", comemorou a Coordenadora do Programa Nacional de Alimentação Escolar, Manuelita Falcão, lembrando que a iniciativa marca os 60 anos das ações do Governo Federal na área de alimentação escolar.

As cinco receitas mais saborosas e criativas - uma de cada região do país - serão divulgadas nesta quinta-feira, 28, durante cerimônia de premiação no auditório do Ministério da Educação, às 9h30, com a presença do Ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e do presidente do FNDE, Idilvan Alencar. As criadoras das receitas vencedoras levarão um prêmio de R$ 5 mil e uma viagem internacional.

Os nomes das merendeiras finalistas e as receitas estão disponíveis na página oficial do concurso.

A alimentação na casa da gaúcha Vânia Simone Mackedanz Timm, 43 anos, é marcada pelo antes e depois do trabalho como merendeira. A comida rápida e frita feita em casa para a família foi trocada pelas inúmeras receitas saudáveis que aprendeu na escola onde trabalha há oito anos. “O que eu fazia na minha cozinha não chegava perto da variedade de legumes e verduras que se usa na escola”, diz. “Agora, até horta sem veneno [sem agrotóxicos] temos no quintal de casa.”

Moradora da zona rural do município de Arroio do Padre (RS), a merendeira da Escola Municipal de Ensino Fundamental Barão do Rio Branco é uma das 15 finalistas do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. Promovido pelo Ministério da Educação, em parceria com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o concurso celebra os 60 anos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Para participar do concurso, Vânia precisou de uma “forcinha” do filho Cristian, 20 anos. “Ele e uma vizinha professora insistiram para eu inscrever o bife verde”, destaca. Vânia não acreditava no potencial gastronômico do “bolinho”, que leva couve, mostarda, salsa e cebola, além de ovos, aveia e farinha de trigo.

O prato inventado por ela foi inserido no cardápio da escola há um ano. A ideia surgiu ao se deparar com a variedade de verduras que a cozinha da escola recebe para a merenda dos estudantes. “Mostrei para a nutricionista o que fazia em casa, baseada no que aprendi na escola”, afirma. “Ela gostou e aprovou a introdução na merenda das crianças. A garotada amou.”

O bife verde foi adotado nas seis escolas da redondeza de Arroio do Padre. Na escola onde Vânia trabalha, a receita é variada, para os estudantes não enjoarem. “Às vezes, faço a mistura com brócolis, no lugar da couve”, justifica.

Para o concurso, a gaúcha usará a couve. O modo de preparo vai receber o mesmo incremento adotado nas escolas para aguçar o paladar dos alunos. “Os bolinhos são colocados em embalagens de cupcakes e enfeitados com a Bandeira do Brasil”, adianta.

Vânia está satisfeita de ter passado pelas etapas estadual e regional e chegado à final do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. “Devo ao incentivo do meu filho”, destaca. “Ele já enfrentou temporal comigo, de moto, e nunca reclamou de me buscar no meio da estrada, onde desço à noite, do transporte, a quatro quilômetros de casa.”

A receita de bife verde, de Vânia Simone Timm, pode ser conferida na página do prêmio na internet.

Reaproveitar alimentos é palavra de ordem para a merendeira Gerlinda Boening, 48 anos, que trabalha na escola pública municipal da zona rural de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo. O combate ao desperdício e a busca por uma alimentação sustentável levaram Gerlinda a uma criação de sucesso, o frango ao molho com casca de abóbora.

A receita sustentável tornou-se uma das 15 finalistas do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. Promovido pelo Ministério da Educação, em parceria com o Fundo de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o concurso celebra os 60 anos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

O segredo do prato está na simplicidade e sutileza da elaboração. Além de aproveitar a casca da abóbora, o modo de preparo orienta cozinhar os alimentos com pouca água para evitar o desperdício de nutrientes. Até a água do cozimento é reaproveitada.

As dicas são frutos de anos de experiência de Gerlinda, que trabalha como merendeira há 29 anos. Ela começou a trabalhar em escola quando tinha apenas 18 anos. “Foi meu primeiro emprego. Cinco anos como contrato e depois passei em um concurso municipal. E não penso em me aposentar”, ressalta.

A “merendeira sustentável”, como se define, começou cedo na arte culinária, na roça. “Tinha meus 12 anos quando aprendi, em casa, a fazer milagre com o que tinha”, conta. A experiência foi adquirida com a mãe e ajudou na profissão. “Vinte anos atrás não era fácil. Trabalhava sozinha para atender 150 alunos e não tinha geladeira na escola”, relembra.

Gerlinda foi uma das primeiras merendeiras de Santa Maria de Jetibá. Para ir de casa para a escola na zona rural andou a pé e enfrentou chuva até comprar uma moto. Chegou a levar algumas quedas nas estradas de chão, mas sempre estava preparada para os imprevistos do percurso. “Mantinha uma peça de roupa limpa no trabalho e quando chegava enlameada, eu trocava.”

Trabalhar numa escola é motivo de orgulho para Gerlinda. De acordo com a merendeira, foi isso que a levou a concluir o ensino fundamental aos 30 anos de idade. “Eu tinha só até a quarta série e as professoras me ajudaram na aprendizagem”, conta.

O gosto pelo reaproveitamento de alimentos aumentou com os estudos. “Aprendi que cascas e talos têm muitos nutrientes.” A merendeira também e a inventora do pão nutritivo adotado pela escola, que aproveita talos de verduras e legumes. A inovação não se limita aos pratos.

Na hora da merenda, o refeitório é transformado em um ambiente de restaurante estilo self-service. “Os alunos escolhem o que querem comer e com quem sentar em mesas com quatro lugares que estão sempre com um arranjo em cima”, destaca.

Gerlinda soube que era finalista no concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar por meio do celular. “Recebi uma mensagem da organização do concurso.” Para a merendeira, ser uma das 15 finalistas é uma verdadeira vitória. “Estou muito feliz e emocionada. Esse reconhecimento em quase 30 anos de serviço já valeu como prêmio”, conclui.

Conheça a receitado frango ao molho com casca de abóbora.

O sonho da merendeira Maria de Lurdes Fidelis, 51 anos, é se formar em gastronomia. A vontade aumentou depois que soube de sua classificação na final do Melhores Receitas da Alimentação Escolar. Trata-se de concurso promovido pelo Ministério da Educação, em parceria com o Fundo de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que celebra os 60 anos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). A premiação gastronômica vai reunir em Brasília, nos dias 28 e 29 próximos, 15 finalistas de todas as regiões do país. A paranaense Maria de Lurdes é uma delas, com a torta de arroz nutritiva.

A vocação culinária começou cedo. Era apenas uma menina de oito anos de idade em Matelândia (PR) quando pegou nas panelas de verdade pela primeira vez. “Minha mãe tinha acabado de ganhar neném e precisava repousar. Meu pai preparava a comida cedo, antes de sair pra trabalhar. Eu tinha de esquentar na hora do almoço. Como ainda era muito pequena, meu pai fez um banquinho para eu subir, não me queimar nem deixar a comida queimar”, lembra Maria de Lurdes.

A carreira na cozinha começou anos depois, já adulta, em um frigorífico onde trabalhou pesado por dois anos. “Cheguei a cortar 700 bifes em um almoço. Um para cada funcionário”, recorda. A vida mudou quando foi convidada para trabalhar como merendeira na Escola Municipal Dom Pedro II. O que era apenas para cobrir férias de um mês se tornou profissão efetiva, após passar em um concurso há três anos. “Foi tenso porque eram quatro vagas e a minha classificação foi quinto lugar. Tive de esperar e acabei sendo chamada”, afirma.

A torta de arroz nutritiva criada por Maria de Lurdes para o concurso do MEC tem consistência suculenta e dá a impressão de que leva queijo. Mas, o preparo gasta menos de uma hora e tem uma diversidade de ingredientes: ovos, leite, trigo e arroz, além de cebola e tomate picados. O recheio vai desde peito de frango desfiado, cebolinha e salsinha a repolho ralado, brócolis picado e cenouras em cubos.

“Quando soube do concurso, conversei com a nutricionista da escola, que queria criar uma receita usando os ingredientes disponíveis”, explica. A certeza da merendeira veio quando colocou a iguaria à prova dos alunos. “Eles gostaram da criação. Não jogaram a comida fora, nem separaram no canto do prato algo que não tenham gostado. Me senti segura para competir”, destaca.

A merendeira acredita que o segredo da rápida aceitação do prato está no cuidado do preparo dos alimentos. Para manter o sabor e tornar o prato mais atrativo, ela costuma ralar os alimentos ou deixá-los em pedaços bem pequenos. “O menor possível. Sou chata. Pico bem e cozinho de forma que não percam os nutrientes. O brócolis, corto e refogo antes de juntar à torta”, ensina.

Maria de Lurdes é autora de outros dois pratos que também fazem sucesso entre os 130 alunos do Dom Pedro II, que comem as merendas preparadas por ela todos os dias. “Eu e minhas colegas fazemos o pão e os biscoitos distribuídos aos estudantes. A escola não precisa comprar esses alimentos industrializados”, explica. Segundo ela, a confecção própria garante a qualidade dos produtos.

Improvisação é com ela mesmo. Segundo a merendeira, quando o cardápio da merenda para o mês é liberado e os ingredientes demoram a chegar, ela dá um jeito. “Troco uma receita por outra ou um ingrediente por outro. Dá tudo certo”, afirma. Todos os dias a merenda feita por ela é incrementada com temperos de uma hortinha organizada na própria escola. “Frequentemente os alunos me pedem a receita do que faço para a merenda. Eles não sabem que o principal tempero é o amor. Quando se cozinha com carinho e procura-se fazer bem feito, o sucesso é garantido”, ensina.

Durante as aulas, a torta de arroz nutritiva da Maria de Lurdes vira objeto de promoção do saber. Em sala de aula os professores trabalham as receitas nas disciplinas. A matemática explora a questão dos numerais, quantidades e situação problema, além de adição e subtração. Já o estudo da língua portuguesa aproveita o texto do preparo da iguaria, leitura e interpretação e até divisão silábica. Em ciências os alunos tratam dos grupos alimentares (energéticos, construtores e reguladores) e também de alimentação saudável e consequências de uma alimentação não saudável. Por fim, história e geografia tratam dos alimentos regionais e até o ensino religioso entra no bolo didático ao falar em desperdício.

Conheça a receita da torta de arroz nutritiva.

Saboroso, variado e colorido. É assim o cardápio de merendas da Escola Municipal Francisco Leite, em Salvador. Lá, cerca de 850 alunos recebem diariamente uma alimentação balanceada. Responsável pela cantina da escola há dez anos, Cláudia Antônia Bispo dos Santos, 44, está sempre buscando novas formas de estimular o consumo de alimentos saudáveis.

Uma mistura bem temperada de soja, frango e verduras variadas é a nova invenção de sucesso da merendeira. O enroladão saudável, aprovado por alunos e professores, é um dos finalistas do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. Promovido pelo Ministério da Educação, em parceria com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o concurso celebra os 60 anos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

“Eu me sinto muito feliz por expressar meu trabalho através das minhas receitas”, diz Cláudia. “Com essa merenda, eu achei que mudou tudo por aqui. Os meninos não comiam soja nem verdura e agora comem.”.

Para a merendeira, a escola é um local privilegiado para formação de bons hábitos, principalmente quando se trata de crianças. “A maioria das crianças tem muita dificuldade de comer, o que muitas vezes vem de família”, afirma. “Aqui na escola, ensinamos os meninos a comer de tudo um pouco, variamos as verduras e até o jeito de cortar.”

De acordo com as normas do Pnae, uma alimentação saudável requer multidiversidade de ingredientes. O equilíbrio entre carboidratos, proteínas, fibras, vitaminas e minerais é fundamental para suprir as necessidades nutricionais de cada faixa etária.

A nutricionista Higina Batista do Nascimento, 39 anos, observa que merenda não é lanche. “Nós oferecemos uma alimentação saudável, que possui um cálculo nutricional e uma avalição dos alimentos por profissionais”, diz. Ela destacou também a importância da criatividade na cozinha como forma de introduzir novos alimentos. “A soja é uma das opções de proteína que tem mais rejeição nas escolas, mas com criatividade conseguimos introduzir no cardápio.”

Gestora da unidade em Cajazeiras (BA) há dez anos, Maria Adelma Conceição Lins, 44, afirma que toda comunidade escolar está entusiasmada com a participação da receita no concurso. Ela conta que todos participaram de um almoço e de uma caixinha para arrecadar fundos para a viagem da equipe a Brasília. “Estamos vivendo um momento de muita alegria”, afirma. “Cláudia é uma lutadora, está sempre disposta a ajudar. Temos certeza que ela vai ganhar.”

A diretora observou ainda que o interesse dos alunos pelo ensino e pela alimentação aumentou. “Eles sempre querem saber qual é o lanche. Então, na sexta-feira, já divulgamos o cardápio da próxima semana”, diz. “Assim, eles já ficam sabendo qual merenda gostosa vai estar esperando por eles.”

Conheça a receita do enroladão saudável.

Foi dada a largada para a grande final do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. Merendeiras das cinco regiões brasileiras já estão em Brasília e nesta quarta-feira, 27, passarão pela prova de fogo, apresentando suas preparações aos jurados. Apenas uma de cada região voltará para casa com o prêmio de cinco mil reais e uma viagem internacional.

Além de mostrar o que há de melhor na alimentação escolar de seus estados, as 15 finalistas desembarcaram em Brasília com outra missão: aprender técnicas para melhorar ainda mais seu desempenho nas escolas.  Nesta segunda e terça-feira,   25 e 26, elas participam de curso de boas práticas oferecido pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) em parceria com o SENAI/DF.  Ao todo serão 20 horas de aulas práticas e teóricas que englobam assuntos variados,  como higiene sanitária, aproveitamento integral de alimentos, pirâmide alimentar, corte de legumes, decoração de pratos e gastronomia infantil.

Jucélia Alves Bonita, merendeira do Centro de Educação Infantil em Mafra (SC), garante que vai colocar em prática tudo o que tem aprendido. “Estou agarrando essa oportunidade. Hoje tivemos uma aula extraordinária, onde aprendi muito sobre temperos. Será muito útil no meu dia-a-dia”, ressaltou.

Apesar de serem concorrentes, as merendeiras seguem em clima de comemoração. Afinal, suas receitas foram escolhidas entre outras 2 mil, de diversas partes do país. “Só de estar aqui já me sinto vitoriosa”, disse a bahiana Cláudia Antônia Bispo, criadora do prato “enroladão saudável”. Outra que celebrou o reconhecimento de seu tempero foi Osmarina Pereira, que há 10 anos cozinha para crianças em escolas de Iporá (GO). “Para mim, o trabalho da merendeira tem a mesma importância que o de um professor ou diretor. É muito bom ser reconhecida pelo que faço”, afirmou.

Na final do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, as merendeiras vão preparar suas receitas e apresentar a atividade de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) para um júri composto por cinco membros: um chef de cozinha, uma nutricionista, um conselheiro de alimentação escolar, uma aluna da rede pública e um convidado representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Além dos critérios considerados nas etapas anteriores (viabilidade na alimentação escolar, valorização de hábitos locais, criatividade, atividade de EAN), serão avaliados também os aspectos sensoriais, tais como apresentação, aroma, sabor, textura e cor.

A expectativa entre as finalistas é grande. “Esse ano completo 30 anos trabalhando como merendeira. O evento do dia 27 será um marco pra mim”, disse Gerlinda Boening, que veio do Espírito Santo para mostrar ao Brasil sua receita de frango ao molho com casca de abóbora. Quem também veio de longe para tentar levar o prêmio foi Maria da Conceição Ferreira, de Vitória do Xingu (PA). “Espero que minha receita de farofa nutritiva faça sucesso”.

As cinco vencedoras – uma de cada região do país – serão conhecidas na quinta-feira, 28, durante cerimônia de premiação no auditório do Ministério da Educação, às 9h30, com a presença do ministro Aloizio Mercadante e do presidente do FNDE, Idilvan Alencar.

Veja a lista das 15 receitas finalistas na página oficial do concurso.

“Você conhece a história da Marta Lagarta?” A pergunta faz parte da primeira lição do dia das crianças da creche municipal Ronald Berger, na área rural do município de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo. A contadora da historinha é a merendeira Leila Foss, 45 anos, que todos os dias passa de sala em sala com uma rápida historieta para despertar o interesse da meninada para a merenda escolar.

“Eu entro em sala com uma alface na mão e distribuo pedaços de folhas para eles comerem enquanto falo que a dona Marta Lagarta trocou chiclete, biscoito recheado e picolé pela alface”, conta Leila. O teatro com a hortaliça é uma introdução para o cardápio da merenda do dia: omelete nutritiva assada.

O prato inventado por Leila, que leva dentre outros ingredientes ervilha em vagem, salsa e cebolinha, lhe rendeu um dos 15 lugares na final do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. Promovido pelo Ministério da Educação, em parceria com o Fundo de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o concurso celebra os 60 anos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Nos dias 28 e 29 de janeiro próximos, Leila estará em Brasília para preparar a omelete na etapa final do concurso. A expectativa de Leila é que sua iguaria esteja entre as cinco vencedoras. “Quando entrei no concurso me questionei aonde chegaria com uma omelete. Estou chegando na capital do país!”, impressiona-se.

Leila trabalha na creche Ronald Berger há 13 anos. Antes, cursou magistério, chegou a lecionar pouco tempo na educação de jovens e adultos e foi auxiliar de sala de aula por três anos, mas a realização profissional veio como merendeira. Diz sentir-se mais à vontade e bem nesta função.

“Vez ou outra sou pressionada a seguir a carreira de magistério, mas não me deixo abalar. Consigo fazer mais onde estou. Como merendeira me sinto útil. Estou próxima dos alunos para passar dicas de alimentação saudável, além de criar histórias”, afirma.

O orgulho de Leila nos últimos dias é ser reconhecida na rua pelos meninos maiores que já passaram pela creche, depois que sua fama de finalista de concurso se espalhou. “Eles me tratam com carinho. Lembram que cuidei deles e agora que sabem do concurso me chamam de a merendeira do ano (risos).”

A omelete criada por Leila entrou na alimentação escolar da creche em 2014. Segundo ela, o cardápio daquele ano chegou com sugestão de fritada de ovos e ela incrementou com os outros ingredientes até sair a omelete nutritiva.

A fartura da zona rural de Santa Maria de Jetibá contribui com o incremento da alimentação nas escolas na região. Com isso, a merendeira dispõe de um leque de verduras e legumes para ajudá-la a reinventar o cardápio da merenda escolar.

Leila revela que o concurso fez as ideias borbulharem. “Estou criando novos cardápios para submeter à aprovação da nutricionista e preparar para a criançada”, diz. Empolgada, a merendeira do município capixaba tem anotado as receitas que vêm à cabeça. “Quem sabe eu não participo de novos concursos”, almeja.

Conheça a receita da omelete nutritiva assada.

Quando soube do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, a merendeira Silvana Aparecida Gentil Ribeiro, 43 anos, logo se animou. “Já sei o que vou fazer: lasanha de banana-da-terra”, ela disse às colegas de cozinha. “Que receita é essa?”, questionaram. “Não sei, inventei agora”, conta, caindo no riso. O prato, até então surgido apenas na cabeça da cozinheira, deu tão certo que virou um dos 15 finalistas da competição nacional.

Com mais de duas mil inscrições recebidas de todas as partes do país, a premiação é promovida pelo Ministério da Educação e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Com o objetivo de estimular uma alimentação de qualidade nas escolas brasileiras, o concurso pretende, ainda, reconhecer o trabalho dos profissionais da merenda.

Há menos de um ano na cozinha da Escola Estadual Zélia da Costa Almeida, em Cuiabá, capital de Mato Grosso, Silvana conta que a relação com a unidade de ensino vem de algum tempo, mas nunca foi tão forte. A filha dela, que já foi aluna, hoje compõe o corpo docente. A própria Silvana trabalhou na escola, como assistente de um projeto de reforço na alfabetização das crianças, e já tinha ministrado curso voluntário de culinária.

A descoberta como merendeira só veio na metade de 2015. Apesar do receio inicial, o trabalho a surpreendeu. “Eu achava que gostava da sala de aula, mas descobri que gosto é da cozinha, mesmo”, diz, orgulhosa, a cozinheira, que sonha com o curso superior de gastronomia. O curso técnico de nutrição dietética, ofertado pelo Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), criado em 2011 pelo governo federal, ela já tem.

A receita finalista não leva massa. O diferencial é a banana, produto abundante na região. “Na escola, a gente não usa embutidos, mas tem o queijo e a fruta, que viraram a base da lasanha”, diz Silvana, sobre a ideia do prato, no qual ela deveria usar os ingredientes do cardápio escolar.

Além de apresentar a iguaria a alunos e professores, que aprovaram a criatividade, Silvana juntou a experiência de sala de aula com a da cozinha. ”Elaborei um projeto ensinando os alunos do segundo e do terceiro anos, por saberem manejar uma faca, a fazer a receita”, conta.     

Reciclagem — A alimentação dos alunos é acompanhada por uma nutricionista da Secretaria de Educação estadual. Além de passar o cardápio, ela promove as chamadas reciclagens dos profissionais da cozinha, todos os anos. “Participei de uma, agora, sobre carne suína, que ainda é um mito na cozinha”, comenta Silvana. Ela sabe que alguns alunos, às vezes, só têm a refeição servida na escola. Assim, considera a merenda fundamental. “Muitos alunos saem direto da escola para o trabalho, o primeiro emprego; então, ali, já é uma alimentação reforçada”, diz. “Eu mesma, quando era pequena, amava ir para a escola, para comer.”

A cozinheira admite que, naquele tempo, as condições de vida não eram muito boas. “Sabendo disso, aí mesmo é que você tem o maior prazer em servir”, diz. É por isso que, para Silvana, além do cuidado na higiene e no manuseio dos alimentos, a busca por cursos é um incentivo a cozinhar sempre melhor.

Ansiosa para conhecer Brasília e viajar de avião pela primeira vez, a merendeira diz que não vê a hora de adquirir o conhecimento que terá na última etapa do concurso. “Isso já é um prêmio que eu estou ganhando.”

A receita da lasanha de banana-da-terra de Silvana pode ser conferida na página do prêmio na internet.

“É a coisa que eu mais gosto na minha vida”, diz Maria da Conceição Ferreira do Carmo, sobre o trabalho de merendeira na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Do Evangelho, em Vitória do Xingu (PA). Há quatro anos, ela cozinha para 360 alunos do município, na zona rural no sul do estado paraense e em 2015 ganhou um reconhecimento diferente.

Autora da receita de farofa nutritiva, classificada entre as 15 finalistas do Concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, além de ver o prato fazer sucesso entre alunos e jurados, ela sentiu o gostinho de a iguaria ser transformada em tema de estudo na sala de aula. O Projeto Interdisciplinar Farofa Nutritiva, como foi chamado, envolveu os alunos do terceiro ao quinto ano entre novembro e dezembro de 2015.

Em todas as matérias do ensino fundamental, a farofa foi trabalhada pelos professores e alunos. Na disciplina de português, por exemplo, o gênero receita foi estudado com mais atenção. Já em matemática, a quantidade dos ingredientes, a proporção e a transformação das medidas foram incorporadas ao conteúdo normal.

A origem dos alimentos utilizados no prato foi discutida na matéria de geografia, por meio de visita dos estudantes à casa de farinha da aldeia Pakisamba. Lá, eles puderam conhecer a produção do principal produto da receita, comprado da cooperativa indígena pelo Programa de Aquisição de Alimentos do Governo Federal.

Em história, conhecer a realidade das quatro aldeias indígenas da região que fornecem a farinha ampliou a visão dos alunos sobre a receita. O valor nutricional dos ingredientes foi trabalhado, ainda, em ciências. E na disciplina de artes quem deu aula foi a merendeira Maria da Conceição, que colocou os alunos para pôr a mão na massa e se deliciar com a farofa, que chegou à final do concurso promovido pelo Ministério da Educação e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

A competição busca conhecer e valorizar os pratos servidos diariamente a milhões de brasileiros, nas escolas públicas do país, além de reconhecer o trabalho de merendeiros e merendeiras. Quando surgiu a oportunidade de participar do concurso, Maria da Conceição resolveu criar o prato especialmente para inscrevê-lo na disputa.  

“Grão de bico, soja, cenoura, beterraba, cebolinha, pimentinha de cheiro e a farinha de puba, típica da região”, são alguns ingredientes da receita citados por Maria da Conceição, esclarecendo que outros tipos de farinha do país também podem ser usados. O importante, diz a merendeira, é a farofa ser cheia de alimentos saudáveis.

Aprendizado – Na Escola Do Evangelho, tudo o que vai para o prato das crianças é acompanhado de perto pela equipe de nutricionistas do município, que visita a escola semanalmente. Os profissionais dão orientações às merendeiras e montam, junto com elas, o melhor cardápio servido aos alunos, da pré-escola à Educação de Jovens e Adultos (EJA), nos três turnos.  

Mas nem sempre foi fácil. No começo, havia muita resistência dos alunos com o cardápio proposto e era constante o desperdício de alimentos. Foi preciso, então, chamar a família para a escola e promover a importância de uma reeducação alimentar também em casa.

Nesse processo, o projeto Horta Escolar, mantido pelo programa Mais Educação, do Governo Federal, foi um importante incentivo na alimentação dos estudantes. Alguns ingredientes das receitas preparadas na cozinha da escola são cultivados pelos próprios alunos. Uma maneira de, desde cedo, despertar o interesse das crianças pelos alimentos. Plantando e colhendo legumes e hortaliças, fica mais difícil recusá-los na hora de comer.

As frutas são compradas dos agricultores da região e têm até um dia especial no cardápio. É a sexta-feira, o Dia da Fruta, em que além de serem usadas nos sucos, são servidas como sobremesa. E se tem uma fruta que não pode faltar é o açaí. Seja qual for o dia, servido com farinha de mandioca, ele é sucesso garantido entre os alunos. “Os meninos adoram”, conta a merendeira, orgulhosa.

Confira a receita da farofa nutritiva.

O abará servido na Escola Municipal Nossa Senhora das Candeias, na comunidade quilombola de Praia Grande, na Ilha de Maré, em Salvador, não é como o tradicional, feito na Bahia. Lá, o bolinho de feijão-fradinho com camarão seco foi substituído por uma massa de aipim (mandioca) e carne moída temperada com bastante cebola, tomate, pimentão, coentro e azeite de dendê, servida na folha de bananeira.

Aprovada pelos alunos, professores e pais, a troca dos ingredientes foi uma sugestão de Dejanira dos Santos, 41 anos, merendeira da escola há 17 anos. “Não gosto de ficar parada, estou sempre inventando um jeito para os meninos comerem de tudo, e sei que por aqui ninguém nunca comeu um abará de aipim”, comenta, sorrindo.

Dejanira é uma das 15 finalistas do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, lançado pelo Ministério da Educação e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). O objetivo da competição nacional, que reuniu 2.433 merendeiras do país, é comemorar os 60 anos de criação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e incentivar a prática de hábitos alimentares saudáveis nos alunos.

De acordo com Dejanira, quando a escola decidiu participar do concurso, havia a dúvida entre quatro receitas – moqueca de peixe com pirão de banana, feijão tropeiro de soja e cuscuz nordestino com peixe e farofa de aveia –, mas o abará de carne moída foi o escolhido. A final do concurso está prevista para os dias 28 e 29 próximo, em Brasília. A merendeira fará sua primeira viagem de avião. “Estou muito feliz; chegar na final do concurso já é o começo para mim”, afirma. “Só fico nervosa por causa do avião, mas vou segurar na mão de Deus e enfrentar.”

Preocupada com o preparo da receita na etapa final do concurso, a baiana vai levar alguns ingredientes de casa. “Aqui na comunidade encontramos dendê, aipim e folha de bananeira em qualquer quintal. Vou preparar a folha no fogo, armazenar direitinho para servir o abará de carne moída”. Além dos produtos usados na receita, Dejanira vai incluir na bagagem dois pacotes de doce de banana na palha, receita tradicional da avó.

Oficina — Em dezembro último, alunos do quarto e do quinto anos da Escola Municipal Nossa Senhora das Candeias participaram de uma oficina para aprender a receita. Além do modo de preparo, foram explicados os benefícios dos alimentos e a importância da boa alimentação para a saúde.

A nutricionista Taís Cardoso de Jesus, da Secretaria municipal de Educação, também participou da aula experimental. Segundo ela, o aipim é rico em carboidratos e fibras e dá energia para as crianças. A carne tem proteínas que auxiliam no crescimento e na reparação de tecidos do organismo humano. Além disso, o azeite de dendê tem vitaminas A e K, importantes para fortalecer o sistema imunológico e agir no processo de coagulação sanguínea.

Conheça a receita do abará de carne moída.

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