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Saboroso, variado e colorido. É assim o cardápio de merendas da Escola Municipal Francisco Leite, em Salvador. Lá, cerca de 850 alunos recebem diariamente uma alimentação balanceada. Responsável pela cantina da escola há dez anos, Cláudia Antônia Bispo dos Santos, 44, está sempre buscando novas formas de estimular o consumo de alimentos saudáveis.

Uma mistura bem temperada de soja, frango e verduras variadas é a nova invenção de sucesso da merendeira. O enroladão saudável, aprovado por alunos e professores, é um dos finalistas do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. Promovido pelo Ministério da Educação, em parceria com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o concurso celebra os 60 anos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

“Eu me sinto muito feliz por expressar meu trabalho através das minhas receitas”, diz Cláudia. “Com essa merenda, eu achei que mudou tudo por aqui. Os meninos não comiam soja nem verdura e agora comem.”.

Para a merendeira, a escola é um local privilegiado para formação de bons hábitos, principalmente quando se trata de crianças. “A maioria das crianças tem muita dificuldade de comer, o que muitas vezes vem de família”, afirma. “Aqui na escola, ensinamos os meninos a comer de tudo um pouco, variamos as verduras e até o jeito de cortar.”

De acordo com as normas do Pnae, uma alimentação saudável requer multidiversidade de ingredientes. O equilíbrio entre carboidratos, proteínas, fibras, vitaminas e minerais é fundamental para suprir as necessidades nutricionais de cada faixa etária.

A nutricionista Higina Batista do Nascimento, 39 anos, observa que merenda não é lanche. “Nós oferecemos uma alimentação saudável, que possui um cálculo nutricional e uma avalição dos alimentos por profissionais”, diz. Ela destacou também a importância da criatividade na cozinha como forma de introduzir novos alimentos. “A soja é uma das opções de proteína que tem mais rejeição nas escolas, mas com criatividade conseguimos introduzir no cardápio.”

Gestora da unidade em Cajazeiras (BA) há dez anos, Maria Adelma Conceição Lins, 44, afirma que toda comunidade escolar está entusiasmada com a participação da receita no concurso. Ela conta que todos participaram de um almoço e de uma caixinha para arrecadar fundos para a viagem da equipe a Brasília. “Estamos vivendo um momento de muita alegria”, afirma. “Cláudia é uma lutadora, está sempre disposta a ajudar. Temos certeza que ela vai ganhar.”

A diretora observou ainda que o interesse dos alunos pelo ensino e pela alimentação aumentou. “Eles sempre querem saber qual é o lanche. Então, na sexta-feira, já divulgamos o cardápio da próxima semana”, diz. “Assim, eles já ficam sabendo qual merenda gostosa vai estar esperando por eles.”

Conheça a receita do enroladão saudável.

Foi dada a largada para a grande final do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. Merendeiras das cinco regiões brasileiras já estão em Brasília e nesta quarta-feira, 27, passarão pela prova de fogo, apresentando suas preparações aos jurados. Apenas uma de cada região voltará para casa com o prêmio de cinco mil reais e uma viagem internacional.

Além de mostrar o que há de melhor na alimentação escolar de seus estados, as 15 finalistas desembarcaram em Brasília com outra missão: aprender técnicas para melhorar ainda mais seu desempenho nas escolas.  Nesta segunda e terça-feira,   25 e 26, elas participam de curso de boas práticas oferecido pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) em parceria com o SENAI/DF.  Ao todo serão 20 horas de aulas práticas e teóricas que englobam assuntos variados,  como higiene sanitária, aproveitamento integral de alimentos, pirâmide alimentar, corte de legumes, decoração de pratos e gastronomia infantil.

Jucélia Alves Bonita, merendeira do Centro de Educação Infantil em Mafra (SC), garante que vai colocar em prática tudo o que tem aprendido. “Estou agarrando essa oportunidade. Hoje tivemos uma aula extraordinária, onde aprendi muito sobre temperos. Será muito útil no meu dia-a-dia”, ressaltou.

Apesar de serem concorrentes, as merendeiras seguem em clima de comemoração. Afinal, suas receitas foram escolhidas entre outras 2 mil, de diversas partes do país. “Só de estar aqui já me sinto vitoriosa”, disse a bahiana Cláudia Antônia Bispo, criadora do prato “enroladão saudável”. Outra que celebrou o reconhecimento de seu tempero foi Osmarina Pereira, que há 10 anos cozinha para crianças em escolas de Iporá (GO). “Para mim, o trabalho da merendeira tem a mesma importância que o de um professor ou diretor. É muito bom ser reconhecida pelo que faço”, afirmou.

Na final do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, as merendeiras vão preparar suas receitas e apresentar a atividade de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) para um júri composto por cinco membros: um chef de cozinha, uma nutricionista, um conselheiro de alimentação escolar, uma aluna da rede pública e um convidado representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Além dos critérios considerados nas etapas anteriores (viabilidade na alimentação escolar, valorização de hábitos locais, criatividade, atividade de EAN), serão avaliados também os aspectos sensoriais, tais como apresentação, aroma, sabor, textura e cor.

A expectativa entre as finalistas é grande. “Esse ano completo 30 anos trabalhando como merendeira. O evento do dia 27 será um marco pra mim”, disse Gerlinda Boening, que veio do Espírito Santo para mostrar ao Brasil sua receita de frango ao molho com casca de abóbora. Quem também veio de longe para tentar levar o prêmio foi Maria da Conceição Ferreira, de Vitória do Xingu (PA). “Espero que minha receita de farofa nutritiva faça sucesso”.

As cinco vencedoras – uma de cada região do país – serão conhecidas na quinta-feira, 28, durante cerimônia de premiação no auditório do Ministério da Educação, às 9h30, com a presença do ministro Aloizio Mercadante e do presidente do FNDE, Idilvan Alencar.

Veja a lista das 15 receitas finalistas na página oficial do concurso.

“Você conhece a história da Marta Lagarta?” A pergunta faz parte da primeira lição do dia das crianças da creche municipal Ronald Berger, na área rural do município de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo. A contadora da historinha é a merendeira Leila Foss, 45 anos, que todos os dias passa de sala em sala com uma rápida historieta para despertar o interesse da meninada para a merenda escolar.

“Eu entro em sala com uma alface na mão e distribuo pedaços de folhas para eles comerem enquanto falo que a dona Marta Lagarta trocou chiclete, biscoito recheado e picolé pela alface”, conta Leila. O teatro com a hortaliça é uma introdução para o cardápio da merenda do dia: omelete nutritiva assada.

O prato inventado por Leila, que leva dentre outros ingredientes ervilha em vagem, salsa e cebolinha, lhe rendeu um dos 15 lugares na final do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. Promovido pelo Ministério da Educação, em parceria com o Fundo de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o concurso celebra os 60 anos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Nos dias 28 e 29 de janeiro próximos, Leila estará em Brasília para preparar a omelete na etapa final do concurso. A expectativa de Leila é que sua iguaria esteja entre as cinco vencedoras. “Quando entrei no concurso me questionei aonde chegaria com uma omelete. Estou chegando na capital do país!”, impressiona-se.

Leila trabalha na creche Ronald Berger há 13 anos. Antes, cursou magistério, chegou a lecionar pouco tempo na educação de jovens e adultos e foi auxiliar de sala de aula por três anos, mas a realização profissional veio como merendeira. Diz sentir-se mais à vontade e bem nesta função.

“Vez ou outra sou pressionada a seguir a carreira de magistério, mas não me deixo abalar. Consigo fazer mais onde estou. Como merendeira me sinto útil. Estou próxima dos alunos para passar dicas de alimentação saudável, além de criar histórias”, afirma.

O orgulho de Leila nos últimos dias é ser reconhecida na rua pelos meninos maiores que já passaram pela creche, depois que sua fama de finalista de concurso se espalhou. “Eles me tratam com carinho. Lembram que cuidei deles e agora que sabem do concurso me chamam de a merendeira do ano (risos).”

A omelete criada por Leila entrou na alimentação escolar da creche em 2014. Segundo ela, o cardápio daquele ano chegou com sugestão de fritada de ovos e ela incrementou com os outros ingredientes até sair a omelete nutritiva.

A fartura da zona rural de Santa Maria de Jetibá contribui com o incremento da alimentação nas escolas na região. Com isso, a merendeira dispõe de um leque de verduras e legumes para ajudá-la a reinventar o cardápio da merenda escolar.

Leila revela que o concurso fez as ideias borbulharem. “Estou criando novos cardápios para submeter à aprovação da nutricionista e preparar para a criançada”, diz. Empolgada, a merendeira do município capixaba tem anotado as receitas que vêm à cabeça. “Quem sabe eu não participo de novos concursos”, almeja.

Conheça a receita da omelete nutritiva assada.

Quando soube do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, a merendeira Silvana Aparecida Gentil Ribeiro, 43 anos, logo se animou. “Já sei o que vou fazer: lasanha de banana-da-terra”, ela disse às colegas de cozinha. “Que receita é essa?”, questionaram. “Não sei, inventei agora”, conta, caindo no riso. O prato, até então surgido apenas na cabeça da cozinheira, deu tão certo que virou um dos 15 finalistas da competição nacional.

Com mais de duas mil inscrições recebidas de todas as partes do país, a premiação é promovida pelo Ministério da Educação e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Com o objetivo de estimular uma alimentação de qualidade nas escolas brasileiras, o concurso pretende, ainda, reconhecer o trabalho dos profissionais da merenda.

Há menos de um ano na cozinha da Escola Estadual Zélia da Costa Almeida, em Cuiabá, capital de Mato Grosso, Silvana conta que a relação com a unidade de ensino vem de algum tempo, mas nunca foi tão forte. A filha dela, que já foi aluna, hoje compõe o corpo docente. A própria Silvana trabalhou na escola, como assistente de um projeto de reforço na alfabetização das crianças, e já tinha ministrado curso voluntário de culinária.

A descoberta como merendeira só veio na metade de 2015. Apesar do receio inicial, o trabalho a surpreendeu. “Eu achava que gostava da sala de aula, mas descobri que gosto é da cozinha, mesmo”, diz, orgulhosa, a cozinheira, que sonha com o curso superior de gastronomia. O curso técnico de nutrição dietética, ofertado pelo Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), criado em 2011 pelo governo federal, ela já tem.

A receita finalista não leva massa. O diferencial é a banana, produto abundante na região. “Na escola, a gente não usa embutidos, mas tem o queijo e a fruta, que viraram a base da lasanha”, diz Silvana, sobre a ideia do prato, no qual ela deveria usar os ingredientes do cardápio escolar.

Além de apresentar a iguaria a alunos e professores, que aprovaram a criatividade, Silvana juntou a experiência de sala de aula com a da cozinha. ”Elaborei um projeto ensinando os alunos do segundo e do terceiro anos, por saberem manejar uma faca, a fazer a receita”, conta.     

Reciclagem — A alimentação dos alunos é acompanhada por uma nutricionista da Secretaria de Educação estadual. Além de passar o cardápio, ela promove as chamadas reciclagens dos profissionais da cozinha, todos os anos. “Participei de uma, agora, sobre carne suína, que ainda é um mito na cozinha”, comenta Silvana. Ela sabe que alguns alunos, às vezes, só têm a refeição servida na escola. Assim, considera a merenda fundamental. “Muitos alunos saem direto da escola para o trabalho, o primeiro emprego; então, ali, já é uma alimentação reforçada”, diz. “Eu mesma, quando era pequena, amava ir para a escola, para comer.”

A cozinheira admite que, naquele tempo, as condições de vida não eram muito boas. “Sabendo disso, aí mesmo é que você tem o maior prazer em servir”, diz. É por isso que, para Silvana, além do cuidado na higiene e no manuseio dos alimentos, a busca por cursos é um incentivo a cozinhar sempre melhor.

Ansiosa para conhecer Brasília e viajar de avião pela primeira vez, a merendeira diz que não vê a hora de adquirir o conhecimento que terá na última etapa do concurso. “Isso já é um prêmio que eu estou ganhando.”

A receita da lasanha de banana-da-terra de Silvana pode ser conferida na página do prêmio na internet.

“É a coisa que eu mais gosto na minha vida”, diz Maria da Conceição Ferreira do Carmo, sobre o trabalho de merendeira na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Do Evangelho, em Vitória do Xingu (PA). Há quatro anos, ela cozinha para 360 alunos do município, na zona rural no sul do estado paraense e em 2015 ganhou um reconhecimento diferente.

Autora da receita de farofa nutritiva, classificada entre as 15 finalistas do Concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, além de ver o prato fazer sucesso entre alunos e jurados, ela sentiu o gostinho de a iguaria ser transformada em tema de estudo na sala de aula. O Projeto Interdisciplinar Farofa Nutritiva, como foi chamado, envolveu os alunos do terceiro ao quinto ano entre novembro e dezembro de 2015.

Em todas as matérias do ensino fundamental, a farofa foi trabalhada pelos professores e alunos. Na disciplina de português, por exemplo, o gênero receita foi estudado com mais atenção. Já em matemática, a quantidade dos ingredientes, a proporção e a transformação das medidas foram incorporadas ao conteúdo normal.

A origem dos alimentos utilizados no prato foi discutida na matéria de geografia, por meio de visita dos estudantes à casa de farinha da aldeia Pakisamba. Lá, eles puderam conhecer a produção do principal produto da receita, comprado da cooperativa indígena pelo Programa de Aquisição de Alimentos do Governo Federal.

Em história, conhecer a realidade das quatro aldeias indígenas da região que fornecem a farinha ampliou a visão dos alunos sobre a receita. O valor nutricional dos ingredientes foi trabalhado, ainda, em ciências. E na disciplina de artes quem deu aula foi a merendeira Maria da Conceição, que colocou os alunos para pôr a mão na massa e se deliciar com a farofa, que chegou à final do concurso promovido pelo Ministério da Educação e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

A competição busca conhecer e valorizar os pratos servidos diariamente a milhões de brasileiros, nas escolas públicas do país, além de reconhecer o trabalho de merendeiros e merendeiras. Quando surgiu a oportunidade de participar do concurso, Maria da Conceição resolveu criar o prato especialmente para inscrevê-lo na disputa.  

“Grão de bico, soja, cenoura, beterraba, cebolinha, pimentinha de cheiro e a farinha de puba, típica da região”, são alguns ingredientes da receita citados por Maria da Conceição, esclarecendo que outros tipos de farinha do país também podem ser usados. O importante, diz a merendeira, é a farofa ser cheia de alimentos saudáveis.

Aprendizado – Na Escola Do Evangelho, tudo o que vai para o prato das crianças é acompanhado de perto pela equipe de nutricionistas do município, que visita a escola semanalmente. Os profissionais dão orientações às merendeiras e montam, junto com elas, o melhor cardápio servido aos alunos, da pré-escola à Educação de Jovens e Adultos (EJA), nos três turnos.  

Mas nem sempre foi fácil. No começo, havia muita resistência dos alunos com o cardápio proposto e era constante o desperdício de alimentos. Foi preciso, então, chamar a família para a escola e promover a importância de uma reeducação alimentar também em casa.

Nesse processo, o projeto Horta Escolar, mantido pelo programa Mais Educação, do Governo Federal, foi um importante incentivo na alimentação dos estudantes. Alguns ingredientes das receitas preparadas na cozinha da escola são cultivados pelos próprios alunos. Uma maneira de, desde cedo, despertar o interesse das crianças pelos alimentos. Plantando e colhendo legumes e hortaliças, fica mais difícil recusá-los na hora de comer.

As frutas são compradas dos agricultores da região e têm até um dia especial no cardápio. É a sexta-feira, o Dia da Fruta, em que além de serem usadas nos sucos, são servidas como sobremesa. E se tem uma fruta que não pode faltar é o açaí. Seja qual for o dia, servido com farinha de mandioca, ele é sucesso garantido entre os alunos. “Os meninos adoram”, conta a merendeira, orgulhosa.

Confira a receita da farofa nutritiva.

O abará servido na Escola Municipal Nossa Senhora das Candeias, na comunidade quilombola de Praia Grande, na Ilha de Maré, em Salvador, não é como o tradicional, feito na Bahia. Lá, o bolinho de feijão-fradinho com camarão seco foi substituído por uma massa de aipim (mandioca) e carne moída temperada com bastante cebola, tomate, pimentão, coentro e azeite de dendê, servida na folha de bananeira.

Aprovada pelos alunos, professores e pais, a troca dos ingredientes foi uma sugestão de Dejanira dos Santos, 41 anos, merendeira da escola há 17 anos. “Não gosto de ficar parada, estou sempre inventando um jeito para os meninos comerem de tudo, e sei que por aqui ninguém nunca comeu um abará de aipim”, comenta, sorrindo.

Dejanira é uma das 15 finalistas do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, lançado pelo Ministério da Educação e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). O objetivo da competição nacional, que reuniu 2.433 merendeiras do país, é comemorar os 60 anos de criação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e incentivar a prática de hábitos alimentares saudáveis nos alunos.

De acordo com Dejanira, quando a escola decidiu participar do concurso, havia a dúvida entre quatro receitas – moqueca de peixe com pirão de banana, feijão tropeiro de soja e cuscuz nordestino com peixe e farofa de aveia –, mas o abará de carne moída foi o escolhido. A final do concurso está prevista para os dias 28 e 29 próximo, em Brasília. A merendeira fará sua primeira viagem de avião. “Estou muito feliz; chegar na final do concurso já é o começo para mim”, afirma. “Só fico nervosa por causa do avião, mas vou segurar na mão de Deus e enfrentar.”

Preocupada com o preparo da receita na etapa final do concurso, a baiana vai levar alguns ingredientes de casa. “Aqui na comunidade encontramos dendê, aipim e folha de bananeira em qualquer quintal. Vou preparar a folha no fogo, armazenar direitinho para servir o abará de carne moída”. Além dos produtos usados na receita, Dejanira vai incluir na bagagem dois pacotes de doce de banana na palha, receita tradicional da avó.

Oficina — Em dezembro último, alunos do quarto e do quinto anos da Escola Municipal Nossa Senhora das Candeias participaram de uma oficina para aprender a receita. Além do modo de preparo, foram explicados os benefícios dos alimentos e a importância da boa alimentação para a saúde.

A nutricionista Taís Cardoso de Jesus, da Secretaria municipal de Educação, também participou da aula experimental. Segundo ela, o aipim é rico em carboidratos e fibras e dá energia para as crianças. A carne tem proteínas que auxiliam no crescimento e na reparação de tecidos do organismo humano. Além disso, o azeite de dendê tem vitaminas A e K, importantes para fortalecer o sistema imunológico e agir no processo de coagulação sanguínea.

Conheça a receita do abará de carne moída.

Há dez anos na Escola Estadual Vereador Antônio Laurindo, em Iporá, Goiás, a merendeira Osmarina Pereira Assini, 40 anos, não imaginava que um velho hábito na cozinha a levaria tão longe. Ela, que nunca foi de se acomodar com a falta de algum ingrediente e se acostumou a substituir uma coisa por outra para criar novas iguarias, é uma das 15 finalistas do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar.

Promovido pelo Ministério da Educação e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o concurso premiará este mês, em Brasília, as cinco melhores receitas servidas em escolas de todas as regiões do país. E a torta saborosa de batata-doce com peixe, criada por Osmarina a partir da falta da farinha de trigo, é uma das concorrentes. 

“A minha farinha de trigo tinha ficado pouca para a receita original; aí eu tinha bastante batata-doce, então resolvi com ela”, conta Osmarina. A merendeira estava certa de que não seria classificada ante as mais de duas mil receitas inscritas. “Porque a gente é do interior, e a escola é muito pequenininha”, diz. “Graças a deus, chegamos. Tem hora que a gente faz as coisas e acha que nem vai dar certo, mas é onde dá.”

Apesar de já ter “cozinhado pra fora” e trabalhado em restaurantes, Osmarina, em sua paixão pela cozinha, se realiza ao alimentar os estudantes das turmas do primeiro ao nono ano que compõem a escola. Cada refeição, ela diz, é um desafio. “É muito gratificante quando você faz as coisas ou inventa alguma receita diferente, e eles amam, pedem pra repetir”, afirma. “Quando eles não gostam, você fica frustrada.” Ela garante que já sabe lidar com a sinceridade e a exigência de sua “clientela”.

No caso da torta saborosa de batata-doce com peixe, a aprovação foi unânime, tanto que foi preciso repetir o prato outras vezes. “O mais legal é que a receita tem a tilápia, que é fonte de ômega 3 (ácido graxo que auxilia na diminuição dos níveis de triglicerídeos e colesterol ruim, enquanto favorece o aumento do colesterol bom), e tem ainda a batata, com valor nutricional muito grande, uma fonte de energia”, explica a merendeira. Segundo Osmarina, até com sardinha é possível fazer a iguaria. “O importante é ter criatividade.”

Formação — Tanto conhecimento sobre o valor nutricional do peixe e da batata-doce não é à toa. A Secretaria de Educação do estado promoveu, também este ano, o primeiro concurso de alimentação entre as unidades escolares. Em duas etapas formativas, as profissionais da cozinha receberam informações sobre a importância desses ingredientes específicos. Além disso, os alunos do programa Mais Educação — estratégia do MEC para ampliar a jornada escolar, com cursos oferecidos pelas escolas participantes — foram estimulados a plantar o vegetal na própria unidade de ensino.

Para Osmarina, o segredo para oferecer uma boa alimentação aos estudantes é a atenção com o cardápio. Na escola Vereador Antônio Laurindo, não há espaço para frituras, por exemplo. Há sempre muita salada, e a variedade dos pratos dá mais equilíbrio ao que as crianças consomem. “Quando algum aluno tem restrição e não pode comer um determinado alimento, a gente procura substituir”, diz. Além das duas refeições por dia servidas a todos os estudantes, aqueles que fazem parte do Mais Educação e, portanto, passam mais tempo no ambiente escolar recebem ainda um reforço no lanche, com frutas da estação.

Orgulho — Feliz por participar do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, a merendeira fala com orgulho da função que exerce na educação dos meninos e meninas de Iporá, município com 32 mil habitantes. “Uai, eu amo o que eu faço, e é tão bom quando você faz um trem que você gosta”, diz Osmarina. Para ela, o destaque dado aos que trabalham na cozinha é um reconhecimento que só professores e diretores estão acostumados a ter. “É muito importante. A gente fica com vontade de fazer melhor ainda.”

A receita da torta saborosa de batata-doce com peixe de Osmarina pode ser conferida na página do prêmio na internet.

Criatividade e improviso foram os ingredientes que deram origem à receita do bolo salgado de arroz da merendeira Anilda Berger. Moradora na zona rural do município de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo, Anilda, 51 anos, está entre os 15 finalistas do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. Promovido pelo Ministério da Educação em parceria com o Fundo de Desenvolvimento da Educação (FNDE) o concurso celebra os 60 anos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Descendente dos pomeranos – povo alemão originário da Pomerânia, que chegou ao Brasil no século 19 – Anilda nasceu e cresceu na roça. A única vez que saiu da fazenda onde mora foi há dez anos, para ir ao estado vizinho, Minas Gerais, vender alho com o marido e o tio na Central Estadual de Abastecimento (Ceasa) de Belo Horizonte.

“Alugamos um caminhão e fomos. Na estrada fui vendo a paisagem diferente. Nunca tinha ido tão longe”, relembra a merendeira, que agora está na expectativa de realizar um sonho: viajar para mais longe ainda e “de avião”. Anilda vai preparar para as “autoridades de Brasília” a receita de sucesso entre os alunos da escola rural municipal Emuef Baixo Rio Pantoja, que fica a oito quilômetros da fazenda onde ela mora.

Para ir e voltar todos os dias da escola onde trabalha, Anilda pilota uma “motinha”, comprada há dez anos com o salário de merendeira. Rotina completamente diferente da vida no campo onde plantava e colhia junto com a família. Ela conta que no início não pilotava bem e tinha medo das subidas e descidas da região serrana.

“Até pensei em sair do emprego quando chegaram as chuvas. Persisti porque pouco antes de começar como merendeira eu tive filhos gêmeos. Não dava pra arriscar viver só da colheita”, conta. Hoje lembra orgulhosa que, antes da motocicleta, o primeiro salário foi para comprar uma máquina de lavar as roupas dos bebês.

Anilda trabalha há 21 anos como merendeira, mas lembra que a adaptação no emprego foi difícil, porque na roça a alimentação era com o que tinha e da forma que desse para preparar. “Cozinhava em casa sem orientação”, explica. Como merendeira, passou a seguir cardápio com as recomendações da nutricionista. “Era comida pra muita gente. Tive de fazer cursos e participar de treinamentos, além de ter horário para trabalhar. Era tudo novo pra mim.”

Apesar da novidade, a receita que Anilda inscreveu no concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar é inspirada na necessidade pela qual passava em casa, quando misturava ao arroz o que tinha de legumes da plantação para fazer render a refeição do dia. Na escola, o bolo salgado de arroz foi criado há dois anos. “O cardápio da primeira semana de aula não chegou a tempo e improvisei com o que tinha”, conta. Anilda misturou ao arroz frango, leite e farinha de trigo. Juntou ainda tomate, cenoura e temperou com cebola, sal e cebolinha.

De acordo com a merendeira, os estudantes começaram a pedir para repetir o cardápio nos outros dias. “A nutricionista da Secretaria Municipal (de Educação) veio conhecer o bolo salgado de arroz, provou, aprovou e o prato passou a fazer parte do cardápio da escola.”

Anilda só teve oportunidade de estudar até a quarta série do ensino fundamental e se emociona ao comparar as condições de ensino para os meninos da roça hoje com os seus tempos de escola. “Agora os alunos chegam na escola têm merenda, fruta, lápis e caderno. Na minha época não tinha merenda. Levava de casa um pão e um ovo cozido para ter o que comer. Mudou muito. Para melhor”, afirma.

Concurso – O concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar busca valorizar o papel das merendeiras e incentivar a prática de hábitos alimentares saudáveis no ambiente escolar, além de conscientizar toda a comunidade escolar sobre o tema.
Na etapa final, prevista para os dias 28 e 29 de janeiro próximos, um júri selecionado deve apontar a iguaria mais saborosa e melhor elaborada de cada região do Brasil. As cinco vencedoras ganharão uma viagem internacional e um prêmio de R$ 5 mil.

A primeira fase do concurso contou com a participação de merendeiras de todo o país. Foram inscritas 2.433 receitas. Desse total, 1.403 passaram pela fase eliminatória e foram submetidas, na etapa estadual, aos votos de presidentes de conselhos de alimentação escolar e nutricionistas cadastrados no Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). As votações apontaram as 123 receitas que seguiram para a fase regional.

Para participar da etapa regional, as merendeiras e merendeiros selecionados descreveram, na página eletrônica do concurso, uma atividade de educação alimentar e nutricional relacionada à sua receita. Em seguida, os presidentes dos conselhos de alimentação escolar e os nutricionistas cadastrados no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) escolheram as três melhores receitas de cada região.

Foram utilizados os mesmos critérios da etapa anterior: criatividade, valorização de hábitos locais e a viabilidade de inclusão no Pnae – possibilidade de replicação no contexto da alimentação escolar. Agora, essas 15 receitas disputam a fase final do concurso. O bolo salgado de arroz da Anilda é uma dessas.

Conheça a receita do bolo salgado de arroz.

Deixar uma criança com água na boca diante de um legume não é fácil. E se o desafio é vivenciado diariamente em casa, na escola a situação não é muito diferente. Por isso, no Centro Municipal de Ensino Futuro Brilhante, em Tangará da Serra, Mato Grosso, o jeito encontrado para fazer os vegetais terem sucesso entre os pequenos foi apresentá-los de forma mais criativa e saborosa.

Criada pela merendeira Nelsi Hoffmann Cassemiro, 43 anos, a torta de legumes tornou-se o caminho mais eficiente para incluir abobrinha, cenoura, chuchu, milho e outros alimentos não tão populares no cardápio dos estudantes de 1 a 4 anos de idade. “Vendo que as crianças não aceitavam bem os legumes, feitos como salada, peguei uma receita que minha mãe fazia e adaptei aos ingredientes da creche”, diz Nelsi. “Logo, elas começaram a aceitar.”

A receita nasceu da necessidade de tornar mais saudável a rotina alimentar de quem torcia o nariz para os legumes, mas acabou levando a escola à final do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar. A competição nacional, promovida pelo Ministério da Educação e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), recebeu mais de duas mil inscrições de pratos servidos em escolas de todas as regiões do país e chega à última etapa neste mês de janeiro.

Antes do concurso, a receita já tinha sido aprovada pelos alunos. Com a competição, Nelsi viu a chance de incentivar outras crianças a consumir os legumes e não teve dúvidas em inscrever a torta. “Geralmente, a salada ficava muito no prato, mesmo com a gente incentivando os alunos a comer”, afirma a merendeira, há dois anos na função. “Então, experimentei fazer dessa forma e teve uma aceitação ótima.”

Os ingredientes vêm da agricultura familiar daquela região mato-grossense. A atenção aos legumes na escola Futuro Brilhante é iniciativa antiga, que inspirou Nelsi. Com o projeto Alimentação Saudável, os professores trabalharam histórias e receitas com frutas, legumes, verduras e temperos naturais em sala de aula. Desenhos, músicas, recortes e degustações foram algumas das estratégias lúdicas para facilitar o contato das crianças com os alimentos.

Aprendizado — Orientada pela equipe nutricional do município, que sempre acompanha o trabalho das merendeiras da escola, Nelsi diz que, além do cardápio a ser seguido, recebe formações periódicas por meio de palestras. “Aprendemos os cuidados com o manuseio dos alimentos e o que oferecer para as crianças que têm alergia”, diz. “E também a incentivar os alunos a comer legumes e verduras e a não desperdiçar.”

E os resultados são visíveis, ela diz, com orgulho. Com os alunos ainda muito pequenos, em fase de introdução alimentar, Nelsi lembra-se de um que, no começo de 2014, rejeitava os diversos pratos do cardápio escolar. Com o cuidado e o estímulo das merendeiras, ao final do ano ele já não recusava a merenda. “A gente foi incentivando, e ele foi aceitando bem a comida. Dá gosto de ver isso.”

Confiança — Antes de chegar à cozinha, Nelsi trabalhou nos serviços gerais da escola. Quando surgiu a vaga para merendeira, ela aproveitou logo a oportunidade. “A cozinha é meu ponto forte, sempre gostei”, afirma. “Mas cozinhar para crianças tem um jeitinho diferente porque elas são mais sinceras: quando não gostam da comida, elas falam mesmo.”

Como os alunos da escola Futuro Brilhante gostaram da torta de legumes, Nelsi passou a considerar reais as chances de ganhar a competição. “Só o curso (de cozinha experimental) que a gente vai fazer em Brasília já vai ser muito bom”, destaca. “Se eu não voltar vitoriosa, também não vou ficar triste; vai ser um aprendizado.”

Nelsi anuncia uma carreata pelas ruas da cidade quando voltar, independentemente do resultado da final. “Mas, se Deus quiser, eu vou sair vencedora”, diz, confiante.

Brincadeira de lado, para Nelsi, o mais importante da participação é a experiência e o reconhecimento proporcionados pelo concurso. Numa das etapas, ela fez o passo a passo da receita com os pequenos alunos. “Geralmente, a merendeira não tem um reconhecimento tão grande, e participar desse concurso, chegar aonde eu cheguei, já é uma vitória”, comemora.

A receita de torta de legumes de Nelsi Cassemiro pode ser conferida na página do prêmio na internet.

Se há um ingrediente que não falta no prato dos alunos da Escola Mundo Infantil, em Parauapebas, Pará, é amor. Quem garante é Vanusa do Nascimento Sousa da Costa, 37 anos, que há cinco trocou a cozinha dos restaurantes pela rotina das escolas municipais. “Tem criancinha que só se alimenta lá”, diz a merendeira, emocionada. “Você nem imagina como é gratificante ver os meninos comendo, depois brincando, correndo, pulando.”

Quando soube do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, promovido pelo Ministério da Educação e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o desejo de participar veio logo. A receita do escondidinho de frango, que Vanusa já fazia em casa, foi adaptada ao paladar das crianças de 4 a 6 anos. O prato fez tanto sucesso que chegou à final da competição, que recebeu mais de 2.433 inscrições de profissionais da merenda todo o país.

O segredo, ela diz, foi o aproveitamento de um legume não muito popular entre as crianças. “Elas não gostam muito de couve. Quando a gente coloca na salada, deixa bem arrumadinho, corta o talo, pra ver se eles comem”, revela. Como o talo tem a mesma vitamina das folhas, Vanusa experimentou juntá-lo com o frango, na esperança de as crianças não notarem. “Deu certo, e ficou supergostoso”, diz. A mesma coisa ela fez com a batata e a mandioca que restaram de outras receitas. “Pegando um pouquinho de um e um pouquinho de outro fica gostoso e nada se estraga.”

A merendeira fala com propriedade sobre a importância da qualidade da comida servida nas escolas, especialmente a que é servida às 278 crianças que ela atende na Mundo Infantil, ainda em fase de construção dos hábitos alimentares. A receita classificada, por exemplo, leva menos sal, dispensa o queijo e inclui a couve quando pensada para os pequenos.

Mãe de seis filhos e avó de um menino de um ano e meio, Vanusa diz que a experiência da escola a ajudou a melhorar o que é servido em casa. “Tenho o maior cuidado agora”, afirma. “Não dou mais doce, nem enlatado; os nutricionistas dizem que não pode.”

Horta — Essa consciência sobre o valor dos alimentos, além do jeito certo de higienizá-los e aproveitá-los, é parte do aprendizado que Vanusa adquiriu no dia a dia e nas formações periódicas oferecidas pela equipe de nutricionistas de Parauapebas. Além disso, toda semana, cada escola recebe a visita de um profissional de nutrição, que orienta as merendeiras e passa o cardápio do que deve ser servido.

Para dar mais qualidade à alimentação das crianças, que fazem duas refeições por turno, o município desenvolve projeto em que cada escola cultiva a própria horta. Merendeiras, funcionários de outros setores e os alunos ajudam a cuidar da pequena plantação orgânica. “A gente já tem cheiro-verde, couve, uns pés de cenoura, pepino, abóbora, cebolinha, jambu, chicória; é linda a nossa horta”, orgulha-se Vanusa.

Maranhense, há dez anos no Pará, ela conta os dias para a final do concurso Melhores Receitas, este mês, em Brasília. Embora concorra a um prêmio de R$ 5 mil e uma viagem, Vanusa já considera uma vitória o fato de representar a escola. Mas o grande prêmio é recebido todos os dias, “quando os alunos gostam da comida e pedem pra repetir”.

A receita de escondidinho de frango de Vanusa pode ser conferida na página do prêmio na internet.

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